quarta-feira, 4 de junho de 2008

Enlace o meu silêncio
E valse a valsa avessa
Que te fiz em pranto.

É valsa em si contrária
Só pisando em falso
Se pressente o chão.

A música ilusória
Quase te atravessa
Sem você dar conta.

E tanta antimatéria
Sem querer se apossa
Do seu coração.

Esqueça o tempo então
E valse um sentimento
Por dentro a valsa esquece o som
Extemporânea
Imaginária
Etérea como o amor
Até quem sabe o Grande Amor!
Amor que vem na valsa
Mas que só se confessa
Quando a valsa cessa
Amor.

Abrace o precipício
E valse a valsa imersa
Num silêncio insano.

É valsa involuntária
mansa em seu ofício
de soar em vão.

Canção desnecessária
Quase sempre acessa
Seu fundo oceano.

Se você perde o senso
Nasce na memória
Súbito salão.

Esqueça o tempo então
E valse um sentimento
Por dentro a valsa esquece o som
Extemporânea
Imaginária
Etérea como o amor
Até quem sabe o Grande Amor!
Amor que vem na valsa
Mas que só se confessa
Quando a valsa cessa
Amor.

A sorte está lançada
A valsa está cansada
Logo vai cessar.

No próximo compasso
Vai sumir no espaço
Vai se dissipar!

Enlace o universo
E valse a valsa imensa
Que te fiz sonhando.

Por mais que não pareça
Nessa valsa avessa
Pulsa um coração.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Hoje eu acordei com vontade de sentir. Sentir nem sei ao certo o que. Talvez a palavra não seja essa. Talvez permitir é mais adequado. Permitir o que? Não sei. A escuta. Que escuta? Minha? dos amigos? do mundo? Todas ao mesmo tempo? Preservar e abrir espaço?. Só por hoje Equilíbrio. Mas tem que ser equilíbrio em movimento pois a vida estática eu não quero. Se bem que penderia para a linha vermelha do desequilibrio. Vamos tomar uma vodka barata meu bem?
Posso jogar com as palavras, construi-las, descontrui-las. Parecer patética, piegas, rasa ou nada.
Mas na verdade sei que se agora eu fosse dizer algo sairia mais como
alkslkaskjajdkshdafjhjs. Um grito de ansiedade misturado com alegria raiva ciume impotencia amor e saudade
ou uma mistura de tudo isso que ainda não tem nome, cheiro, cor ou verbo.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Dia cinza e frio
O merecido descanso tropical de praia e sol parece tão distante agora
Porque ele resolveu não aparecer. O Sol resolveu descansar...afinal, é feriado
Das janelas vejo os carros e as pessoas passando apressados como de costume mas me parecem vivas hoje
Algumas vezes sinto como se visse vários zumbis que já nem sabem mais para aonde vão e de onde vieram e que por despropósito continuam andando
Hoje esses olhares tem alguma coisa diferente. Há uma estranha sensação de que se pode ser feliz embora não haja sol. Esses olhares aguardam e anseiam os tão desejados reencontros e parece que a vida muitas vezes adiada para o final de semana ou feriado agora pode tornar-se presente
No meio de tudo isso
Eu
Ouvindo Chet Baker e escrevendo impressões em um teclado duro
Ensaios agendados
Amigos ligando e convidando para uma cerveja
Outros que prometi encontrar
Uma pilha de livros pra ler
um texto para terminar
E uma estranha vontade de ficar só
Enquanto bares e corações incendeiam silenciosamente a cidade
uma vontade de me encontrar e calar ao invés de gritar
Mas derrepente quando me permito a sinceridade vulgar de meus sentimentos desejo estar com você
Embora os meus pés estejam cansados de tantos passos
Não sei porque...mas ainda desejo

Kate

terça-feira, 22 de abril de 2008

Apesar das múltiplas experiências a minha juventude é solitária
Na medida que pretendi conformar a realidade com as minhas próprias mãos, servindo-me dela, pois acreditei que, ganhando o mundo, conseguiria ganhar a mim mesma. Acontece que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. E encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. Temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo.
Neste momento, a solidão me atravessa como um dardo. É meio dia em minha vida, e a sua face me contempla como um enigma. Invejo aquele que, ao meio dia, se percebe em plena treva, pobre e nu.
Talvez seja esse o preço do encontro, do possível encontro com o outro.

Hélio Pellegrino

terça-feira, 15 de abril de 2008

Uma aprendizagem


De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé. Muita coragem, fém em que? Na própria fé,

que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo. Em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre.

A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.

Hoje as palavras de Clarice reverberam

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Entre contradições
me descubro
Revela-se então a coragem de não negar o grito
Mas predomina o medo
Que encheu a garganta de calos dos gritos sufocados
Será que eu ainda tenho voz?

Kate

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Escorrego nas palavras
me fogem as idéias
e sobram coisas sem sentido
se você pudesse saber
se eu conseguisse dizer
sinto-me tão cansada
mas hoje, só hoje
não vou tentar entender nada
nem com palavra
nem com sentido
Afinal, entender é limitar
E definições desse tipo também
Armadilhas
Alguém me da um trago?
Contradições
Malditas....ou seriam benditas?

Kate

segunda-feira, 31 de março de 2008



E então a menina de olhar assustado e carne frágil soltou o lindo laço de fita, desprezou os panos de cetim e resolveu encarar o mundo

- É terrível, não é?

- É

- Está com medo?

- Provavelmente

- Posso ajudar?

- Empresta o isqueiro

- Aham

- Eu não devia...enfim

- Hmm...Bom...eu vou indo

- Tchau

- Tchau

- Você poderia ficar?

- Infelizmente não posso. Alguma coisa importante? ta tudo bem?

- Ta tudo bem sim. Não...não era nada importante. Só queria dizer que agora penso em coisas bobas e queria que você estivesse ao meu lado para rir delas.

- Que pena que hoje eu não posso

- É...pena

Kate

quinta-feira, 27 de março de 2008

"Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de pareceres ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento. Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático. Deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim. Você toca minha mão, eu toco na sua.Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vez em quando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! Como se fosse verdade, um beijo."

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 25 de março de 2008

A Elipse contém em si a força da polaridade e da mudança. Seus dois eixos, ou centros, marcam certo ritmo de ida e vinda de forças.